27 de agosto de 2014

Resenha: Lolita (Vladimir Nabokov)



Imagem: Google
Sinospse: "Lolita" é uma das obras mais polêmicas da literatura contemporânea universal.
Muito arrojado para a moral vigente na época, o romance de Vladimir Nabokov (1899-1977) foi inicialmente recusado por várias editoras. Ao ser finalmente lançado, em 1955, por uma editora parisiense, gerou opiniões antagônicas: houve quem definisse o livro como um dos melhores do ano; houve quem o considerasse pornografia pura. Nos Estados Unidos, onde só viria a ser publicado em 1958, rapidamente conquistou o topo das listas de mais vendidos.
Visto hoje, filtrado pelos anos e por uma verdadeira biblioteca de comentário e crítica, Lolita parece sobretudo uma apaixonada história de amor, escrita com elegante desespero. O protagonista é o obsessivo Humbert, professor de meia-idade. Da cadeia, à espera de um julgamento por homicídio, ele narra, num misto de confissão e memória, a irreprimível e desastrosa atração por Lolita, filha de 12 anos de sua senhoria.
Escrito num estilo inimitável - mas não intraduzível, como bem se verá -, "Lolita" é uma obra-prima da literatura do século 20. Aqui se cruzam alguns dos temas clássicos da arte de todos os tempos (a paixão, a juventude, o amadurecimento) com questões mais típicas da nossa modernidade, como as ambivalências eróticas e o exílio - que é uma questão tanto de geografia quanto da linguagem e do coração.

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Alguns livros têm o poder de mexer com você, muito mais do que você pode imaginar. Eu sempre acreditei nisso, até porque não foram poucos os que, de alguma forma, influenciaram minha visão de mundo, meu jeito de pensar e sentir sobre fatos e pessoas. Pois bem. Foi numa recente e tediosa tarde em que buscando um filme que me prendesse a atenção, acabei encontrando Lolita, na sua versão de 1997. Aficionada por dramas, eu rendi-me ao filme e num misto de empatia e aversão fiquei a refletir sobre a história do viúvo Humbert Humbert e sua “amada” Lolita. Sem saber o que realmente pensar a respeito, parti em busca do livro escrito por Vladimir Nabokov, que entre os afazeres diários, li em dois dias. Ousadamente, então, trago esta resenha pra vocês.

Pela sinopse já dá para perceber o quão polêmico é o enredo desse romance. Escrito na forma de um diálogo em que o próprio protagonista conversa com o leitor, o livro relata não só o início da relação dele, um homem de meia idade, com uma garota de 12 ou 13 anos, mas nos faz conhecer o garoto Humbert ainda na sua adolescência, quando ao lado de Anabela, ele descobre os sabores doce e amargo da paixão.
“De repente, estávamos louca, desajeitada, imprudente e angustiadamente apaixonados um pelo outro - e desesperadamente, deveria acrescentar, pois aquele frenesi de posse mútua só poderia ser apaziguado se, verdadeiramente, absorvêssemos e assimilássemos todas as partículas da carne e da alma um do outro...”. 
A partir das lembranças de Humbert, percebemos que Anabela morre de tifo antes mesmo dos desejos de ambos se consumarem. E, rememorando isso para o leitor, enquanto traça um paralelo entre a sua primeira e última paixão, ele reflete e nos faz refletir... 
“Folheio e torno a folhear estas tristes memórias e pergunto-me incessantemente se foi então, no brilho daquele remoto Estio, que começou o angustiante da minha vida. Ou o meu desejo excessivo por aquela criança terá sido apenas o primeiro sintoma de uma singularidade inerente? Quando tento analisar os meus anseios, as minhas razões, os meus actos, etc., rendo-me a uma espécie de imaginação retrospectiva, que alimenta a faculdade analítica com alternativas sem fim e faz que o caminho visualizado bifurque e torne a bifurcar infinitamente na perspectiva enlouquecedoramente complexa do meu passado. Estou, no entanto, convencido de que, de certo modo mágico e fatídico, Lolita começou com Anabela.”
Confesso que essa parte das memórias de Humbert talvez tenha me influenciado durante toda a leitura. Mesmo agora, quando escrevo estas linhas, fico oscilando entre duas opiniões: seria ele um irremediável pedófilo ou apenas um homem preso ao passado de um amor mal vivido? Sinceramente não sei.

"Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita."
O encontro de Humbert com aquela que viria a ser sua perdição, e isso no sentido mais amplo dessa expressão, se deu - nas palavras dele - por obra do destino. Europeu erradicado nos Estados Unidos, buscando estabilidade profissional e conforto, ele se hospeda na casa de Charlotte Haze ao conhecer e imediatamente se encantar por sua filha Dolores, a sua futura Lolita. Num primeiro momento fica claro o conflito que se abate sobre ele. Humbert reconhece a impropriedade e a baixeza dos seus anseios em relação à garota, mas, a medida em que ele vê nela uma ninfeta, ele se permite - no início, comedidamente - dar vazão aos seus desejos e paixão.
"Se o meu corpo sabia o que desejava, o meu espírito repelia todos os seus apelos. Num momento sentia-me envergonhado e assustado; no seguinte, temerariamente otimista. Os tabus estrangulavam-me."
"O que me enlouquece é a dupla natureza desta ninfeta - de todas as ninfetas, talvez -, esta mistura, na minha Lolita, de uma terna infantilidade sonhadora e uma espécie de misteriosa vulgaridade, oriunda da graciosidade petulante dos retratos de anúncios e revistas...".
Lendo a sinopse, dá pra gente ter uma ideia do que ocorre entre Humbert e Lô. Uma garota espevitada, no decorrer do livro ela se mostra provocadora e consciente do fascínio que exerce sobre o nosso confidente. O primeiro beijo entre os dois ocorre quando ela sai de viagem para um acampamento. Nesse meio tempo sua mãe morre num acidente, oportunidade que Humbert aproveita para, aparentemente como pai e filha, mas secretamente amantes, eles saírem em viagem pelos Estados Unidos. E é então nesse contexto que a relação entre os dois realmente se desenvolve. Não vou pormenorizar todos os acontecimentos dessa história, até porque ela se desenrola em 1088 (no pdf que eu li) páginas; mas, o livro mostra de forma muito intensa que o inicial encantamento do seu protagonista se transforma numa verdadeira fixação, obsessão pela garota. Assim é que Humbert se torna ciumento, possessivo, e Lô manipuladora.  
"Agora, contorcendo-me de dor e deblaterando contra minha própria memória, reconheço que naquela ocasião, como em outras semelhantes, eu sistematicamente cuidava de ignorar os sentimento de Lolita apenas para aliviar minha vil consciência."
O desfecho do romance é bem triste, tanto pela história em si, como pelo fim trágico que o autor dá a todos os personagens. De minha parte, mais uma vez, eu confesso não saber o que pensar. Na verdade, nem estou bem certa sobre quais eram as minhas expectativas para o fim do livro. Como uma incurável romântica e sonhadora, talvez parte de mim esperasse que Humbert se regenerasse e Lolita reconhecesse que apesar de tudo, ele a amava. Por outro lado, apesar da veemência do protagonista em afirmar seus sentimentos, e acho que é isso que me faz balançar, não vejo como pode existir amor no tipo de relação marcada por chantagem e subjugação (de ambos os lados) que eles viveram.   Mas, essas são dúvidas minhas, deixo a solução do X dessa questão para vocês.
"Eu te amei. Era um monstruoso pentápode, mas como te amava. Era desprezível, brutal, torpe – tudo isso e muito mais, mais je t’aimais, je t’aimai! E houve momentos em que sabia como você se sentia, e era um inferno sabê-lo, minha menina querida. Minha pequena Lolita, minha corajosa Dolly Schiller!"

3 comentários

  1. Adorei a sua resenha, super bem escrita. Estou à bastante tempo para ler esse livro, mas ainda não tive oportunidade, mas sem dúvida que vou ler.

    Adorei o seu blog e já estou a seguir!!
    beijos,
    Daniela

    http://ddocesonhadora.blogspot.pt/

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    1. Oi, Daniela!

      Seja super bem vinda ao nosso cantinho. T&R é um blog que nasceu de uma parceria entre minha amiga Ju e eu. Estamos no comecinho ainda, e por isso, palavras carinhosas como as suas nos servem de incentivo.
      Sobre o Lolita, eu recomendo demais a leitura. Quando o ler, volta aqui pra gente conversar sobre ele, tá? Obrigada pela visita! E volte sempre! :)

      Beijos!

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  2. Não tem como analisar isso sem ver um abuso gritante. Uma criança sendo manipulada por um homem de meia idade. Não, ele não a amava. Com toda a certeza, Dolores Haze não foi a culpada da história. Dolores Haze foi mais umda das vítimas de Humbert. Um livro magnífico que é romantizado por muitos. Lolita retrata um abuso, não um romance. Lolita era uma criança.

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